
Nem toda música nasce para tocar em playlist. Há quem componha para acalmar a mente, reunir gente ao redor de uma fogueira e reconectar quem canta com algo maior do que si mesmo. É esse o espírito por trás de “O Voo da Águia“, álbum de estreia da Família Águia Vermelha, comunidade sediada em Santos dedicada ao estudo do xamanismo contemporâneo.
O disco reúne composições autorais que nasceram, ao longo dos anos, dentro das cerimônias e rodas de canto do grupo — e que agora ganham vida própria fora desse círculo, disponíveis em plataformas de streaming como o Spotify. O lançamento oficial aconteceu no início de agosto, durante um sarau realizado no bairro Gonzaga, que reuniu apresentações musicais, feira de produtos autorais e atividades ligadas à espiritualidade.
O que é “música medicina”
Para quem nunca participou de uma roda de canto xamânica, o termo pode soar estranho. Música medicina não define um estilo musical, mas uma intenção: os chamados rezos funcionam como ferramentas de oração e de fortalecimento coletivo, cantados em grupo, com melodias repetitivas e acompanhamento de instrumentos acústicos como violão, tambores e maracás.
Muitos desses cantos vêm de tradições indígenas e populares da América Latina, mas também surgem composições novas dentro das próprias comunidades — sempre com o mesmo propósito: aproximar pessoas, natureza e espiritualidade através da música. Nesses encontros, quem assiste também canta; a plateia deixa de ser só plateia.

Uma comunidade nascida da vivência
A Família Águia Vermelha existe há alguns anos como espaço de estudo e prática do xamanismo contemporâneo em Santos, conduzido pelo casal de rezadores Txai Felipe Shanka Huni e Amanda. Sob a orientação deles, o grupo realiza cerimônias, encontros de estudo e vivências voltadas ao autoconhecimento, consagrando as medicinas da floresta como ayahuasca, rapé e sananga — substâncias tradicionalmente empregadas por povos indígenas da Amazônia em contextos espirituais e culturais.
Foi dessas vivências, compartilhadas ano após ano, que as composições de “O Voo da Águia” nasceram. As letras, assinadas por Txai Felipe e Amanda, falam de natureza, ancestralidade, pertencimento e força interior — temas centrais da música medicina, mas que também dialogam com quem simplesmente aprecia sonoridades acústicas e cantos coletivos, mesmo sem vínculo com práticas espirituais.

Parte de um movimento maior
O crescimento de comunidades como a Família Águia Vermelha reflete um interesse cada vez maior, em diferentes regiões do Brasil, por práticas que resgatam a relação entre ser humano e natureza: rodas de tambor, vivências ao ar livre, estudo de plantas tradicionais e encontros de autoconhecimento. Nesse cenário, a música deixou de ser apenas entretenimento para se tornar linguagem de encontro e memória coletiva.
Com “O Voo da Águia” agora disponível ao público em geral, uma prática que por muito tempo ficou restrita aos espaços internos da comunidade ganha visibilidade — e convida quem só ouve de fora a espiar um pouco desse universo.
Texto: Lucas Galante
Fotos: Ricardo Tuka
Baseado em reportagem original da Revista Nove (Diego Brigido) — revistanove.com.br
