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Crônica de Adão Ribeiro: REMINISCÊNCIAS CAMPESINAS

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Para começar essa dissertação, devo confessar que não sou muito adepto ao mundo moderno, pois a tecnologia às vezes me assusta. As parafernálias descobertas neste século criam a uma confusão enorme na minha memória. Sei que muitas doenças, até então desconhecidas e incuráveis, só foram identificadas, graças ao avanço da medicina e da ciência. Nesse momento, entram os computadores e máquinas ultramodernos.

É nesse ponto, que acabo me rendendo ao mundo robotizado de hoje. Quem, por exemplo, nasceu nos anos dourados, sem violência e onde as doenças eram curadas com plantas ou benzimentos, tem que se acostumar com o que hora se apresenta. Fui aos poucos e sem querer, assimilando o comportamento e o linguajar de hoje. Mas esse sacrifício, jamais vai custar o abandono das minhas origens e tradições.

Creio que as pessoas percebem que sempre me reporto à minha terra natal, quando falo sobre coisas que marcaram a minha formação ética e moral. Lá está a argila que moldou a alma e o coração de uma pessoa simples e, que, embora o mundo tenha tentado corromper, não obteve êxito. Só Deus sabe a luta que tenho enfrentado para vencer as procelas da vida. O jardim florido da praça matriz e as ruas descalças da minha cidade conhecem de cátedra o meu proceder.

Um conterrâneo inspirado e valendo de recursos modernos, criou um grupo denominado “De volta ao passado”, isso no tal de zap zap. Venho acompanhando diuturnamente, a conversa dos participantes. Através do bate-papo descontraído deles, passo a recordar do nome de pessoas, perdidas na memória. Alguns fatos e lugares pitorescos transportam-me para os mais remotos e longínquos rincões da minha infância. Deito no colo da saudade e sonho com tempos que não voltam mais.

Ao vê-los retratar a vida bucólica do lugar, viajo no tempo e descubro que muitos amigos da infância, tornaram-se médicos, dentistas, advogados, empresários, fazendeiros, artistas, economistas, contadores de história e por ai se vai. A música “No dia que sai de casa”, cantada por Zezé Di Camargo e Luciano, retrata bem o que se passou comigo e com meus conterrâneos. Disse um trecho da letra: “Sempre ao lado do meu pai, da pequena cidade, ela (mãe) jamais saiu. Ela me disse assim, Meu filho vai com Deus, que esse mundo inteiro é seu”.

Ganhamos o mundo, estrada a fora. Desbravamos lugares desconhecidos e viajamos por galáxias dantes navegadas. Mas, em momento algum, perdemos a nossa essência. A vida modernizou, mas continuamos firmes e presos à nossa raiz. As coisas simples do sertão continuaram impregnadas na nossa alma e no nosso coração. Sinto o cheiro do café no torrador, depois moinho e passado no coador de pano. A comida cozida no fogão a lenha e as modas de viola fazem de mim um caipira nato.

Mas, ao apreciar as conversas da turma “De volta ao passado”, trouxe-me uma notícia, deveras triste por demais. Um dos meus grandes amigos de infância, com quem eu passava tardes e tardes, assistindo os filmes e desenhos em preto e branco, em companhia dos pais e do irmão dele, partiu antes do combinado, isso a cerca de dois anos atrás. Isso me pegou de surpresa e me fez entender, que a infância se transforma em realidade e que a vida é breve.

As peraltices, as brincadeiras na rua descalça, as histórias contadas pelos nossos avós, das lendas em noites enluaradas, o primeiro amor platônico, o badalar do sino na torre da igreja matriz, as cachoeiras de águas cristalinas, os bailes no terreirão da fazenda, o ordenhar da vaquinha Mimosa, o latido do cachorro Pitoco, o trote do cavalo pangaré, são reminiscências do campo, da roça e de uma vida simples e sem maldade.

O meu amigo que se foi, antes do combinado, deixou doces marcas em mim. Estou certo de que ele foi à frente de nós, preparar outro lugar tão simples e aconchegante como o da nossa terra natal. Quando chegarmos lá e isso não tarda, vamos encontra-lo sorrindo para nos receber. Vamos sentar em torno dele e, num papo descontraído, recordar da nossa vida campesina.

 

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com

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