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Crônica de Adão Ribeiro: JUSTIÇA CAPENGA

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Ainda nos bancos da escola, isso lá na minha terra natal, eu aprendi muitas coisas, dentre elas, o Hino Nacional e uma matéria denominada “Organização Social e Política Brasileira”. Foi ali que aprendi a respeitar os símbolos nacionais, bem como, o significado das palavras honra e dignidade. Não bastasse isso, descobri o que significa viver em sociedade. O professor de nome Levi, tinha uma didática impar, para ensinar. Devo a ele meu conhecimento, no que diz respeito à sociedade e a política.

Tempo em que não havia computador e, por conseguinte, o copia e cola dos tempos modernos. Tínhamos que pesquisar em livros e bibliotecas e, depois, dissertar sobre o que lera. Desde a tenra infância, fui moldado na bigorna do respeito às pessoas e ao bem comum. Numa cidade pequena do interior, onde todo mundo conhece todo mundo, não havia como negar auxílio e, muito menos trapacear. Se alguém maquiasse a verdade, tinha que deixar a cidade á toque de caixa. Era desmoralizado, achincalhado.

Não era à toa, que as pessoas procuravam se comportar de forma ilibada. A benevolência era marca registrada dos conterrâneos. Lembro-me que ladrões, estelionatários, padrecos, viados e prostitutas não faziam ninho ali. Não demorava muito. Juízes e delegados – borra botas -, saiam pelas portas do fundo. Cansei de ver os valentões de botecos, pedirem clemência em praça pública. Os entreveros, ou se resolviam na conversa ou na bala da garrucha winchester enferrujada. A doença de mulher assanhada era curada na chibata. Naquele tempo, o chicote estralava. Mijar fora do pinico, nem pensar!

E assim fui crescendo, entre os ensinamentos do professor Levi e a escola da vida. Como velho e eterno observador do cotidiano, procurei tirar sempre nota alta, nas questões do comportamento humano. Li no quadro negro da vida, que não há tempo para as algazarras no fundo da classe. O mundo tem pressa e o livro da existência, pode ser fechar a qualquer momento.

Até as crianças da minha infância, não trapaceavam nos jogos de burquinha (bolas de gude). Se o fizessem, além de lavarem croques na cabeça, eram excluídas da brincadeira. Desrespeitar o mais velhos, longe disso. As aulas de OSPB eram vividas na prática. Hoje, já passado tantos anos, ainda recordo do professor Levi e do Osvaldo, da professora Marlene e da Neusa, bem como, de tantos outros. O caráter e o ensinamento daqueles mestres deixaram marcas indeléveis na minha alma e no meu coração.

Lá na minha terra natal, encravada na noroeste do Estado, tinha de tudo. Havia um prefeito fofoqueiro, um padre comilão, um delegado mulherengo, um alfaiate que mordia a fronha, uma casada que ciscava em outros galinheiros, um maluco festeiro, os vereadores sem salário que praticavam filantropia, uma parteira de todos, um jagunço valentão, uma pagador de promessa pelo filho adoentado, porém, não tinha político e nem empresário ladrão.

Hoje, ao deparar-me com tanta corrupção de políticos, juízes e servidores públicos, por parte de empresários gananciosos, sinto uma vontade louca de retornar ao ventre da minha cidade natal, de onde não deveria ter saído nunca. Não sei se esse seres inescrupuloso tiveram os mesmos mestres que eu ou se frequentaram escolas semelhantes a minha. Se eles tiveram, o que duvido, creio que cabularam as aulas de “Organização Social e Política Brasileira” e, também, não foram alunos do professor Levi.

Chama-me atenção, que os corruptos gozam de plena saúde, quando da prática criminosa. Não padecem de nenhuma doença terminal. Exibem uma disposição física e mental invejável, principalmente, para correrem atrás do patrimônio público. O sorriso estonteante dos corruptos cativa os menos desavisados. As regalias a eles deferidas saltam aos olhos de um povo sofrido e explorado.

Mas quando, por ironia do destino, a justiça bate à porta, cobrando o que deles não era, lá se vão pelo ralo, o sorriso espontâneo e a saúde invejável. As doenças da desonra, há muito incubadas e os sorrisos de escárnios afloram repentinamente. Fazem uma encenação de vítimas e inocentes, tripudiando a lei. Brincam com a sabedoria do povo. Eles se escoram numa Suprema Corte apequenada diante do poder econômico, para se livrarem do cárcere.

Quando vejo esses crápulas, socorrendo de um atestado médico, de uma bengala o de uma cadeira de rodas, para simularem insanidade mental ou incapacidade física para deporem ou serem encarcerados, chego a triste conclusão de que não são eles os doentes, mas, sim, a justiça. A nação há de compreender, que nossa Justiça está capenga.

 

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com

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