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Crônica de Adão Ribeiro: NOITES DE TORMENTA

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Caia a tarde e a noite se avizinhava. As províncias e os vilarejos do “Reino Caiçara” preparavam-se para dormir. As ruas cobriam-se de silêncio e as aves recolhiam em seus ninhos, saudando o dia que se foi. Lá longe, podia-se divisar o rosto preguiçoso da lua, chegando mansa e sorrateira. A natureza pintava um quadro de ternura e paz. O vento dançava uma valsa suave, convidando os seres viventes a sonhar o sonho dos anjos. Tudo era belo, tudo era paz.

E eu ali, debruçado na janela do tempo, contemplava a metamorfose daquela imagem, que me embriagava os olhos. Nem o mais renomado dos artistas, conseguiria retratar em tela, aquilo que minha retina gravava com tanta exatidão. A vida tem a cor que a nós pintamos. Percebi que o sol, já cansado e tímido, caminhava lentamente em direção ao arrebol. E para recebê-lo, o horizonte estendia um tapete lusco-fusco.  Uma aquarela estampada com maestria pelas mãos talentosas do universo.

De repente, surgia uma nuvem aqui e acolá. Aos poucos iam se juntando e formando desenhos desconexos e eu, como na minha infância, procurava decifrá-los. Ora bichos… ora árvores… ora gente… ora seres indecifráveis. Não demorou muito e elas foram se tornando escuras e carregadas. Vi o reino fechar os olhos e se recolher de medo. Não se divisava mais o horizonte e nem o coaxar dos sapos martelos. Nenhum pio das aves, abrigadas entre os galhos frondosos da paineira velha.

O vento forte chegou primeiro, para avisar que uma tempestade, estava a caminho. Não demorou muito, uma rajada de raios riscou o céu e o eco dos trovões, gritou noite adentro.  E eu, teimoso, continuava debruçado na janela do tempo. As primeiras gotas de chuva beijaram a minha face. Um beijo frio de arrepiar a epiderme e de trincar os ossos. Lá da cozinha, agarrada a um terço, minha mãe rezava uma oração repetitiva a Santa Bárbara. “Menino, corre e coloca um prato com água, açúcar e sal atrás da porta”, disse ela. Mãe apertava o terço ao peito. Atendi, é claro.

Agarrei um ramo bento (de palmeira) e joguei pela janela. Dali observei, amedrontado, as águas subirem pelas ruas do reino, até onde minhas vistas alcançavam. Num piscar de olhos, a “Praça dos Três Poderes”, centro administrativo do “Reino Caiçara”, onde se localizava o Palácio Real, o Parlamento e a Suprema Corte estava toda ilhada. As ruas ao derredor tornaram intransitáveis, impedindo o tráfego das carruagens, cabriolés, carroças e charretes. Um cachorro magro e sarnento foi levado pela correnteza afora. Triste cena. A chuva torrencial apanhou todos de surpresa. Não se sabia o que era rua e o que era água.

Um heroico jornalista, que transitava por ali, fazendo a voz do povo, gritava por responsabilidade dos administradores do reino e perguntava por onde estava o rei, bem como, o presidente do parlamento e o da suprema corte. Penso que, no que diz respeito ao abandono da urbe, a responsabilidade também se estende ao governados. Cuidar das cidades e dos vilarejos é um dever de todos nós. Os lixos jogados nas ruas e terrenos baldios e, ainda, a impermeabilidade do solo, são fatores preponderantes para as grandes inundações.

A arquitetura do prédio que abrigava a Suprema Corte lembrava-me a arca de Noé. Veio à memória, aquele caixote de três andares, navegando à deriva, durante quarenta dias e quarenta noites. Numa tormenta sem fim, vi a terra virar mar e o mar virar solidão. Ironia do destino, a Suprema Corte há de navegar por anos e anos, por mares revoltos. Arrastará nessa sina, o Palácio Real e o Parlamento.

Da janela do tempo, observo a profecia sendo cumprida. Resta-me apenas olhar para o céu e pedir ao Criador que se abrevie as noites de tormenta.

 

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com

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