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Crônica de Adão Ribeiro: O REI É REAL

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Nada mais belo e comovente, do que as comemorações de final de ano. As questiúnculas entre pessoas pobres de espírito e outros tantos sentimentos nascidos da ganância, desaparecem por um tempo. As querelas, filhas prematuras do ódio, dão lugar ao perdão, conquistado à custa de muitos presentes e mesas fartas. Por esse fato, ao iniciar o ano, a guerra pela sobrevivência e pelo poder, volta com força total. Os seres humanos reincorporam o seu estado natural, isto é, animalesco. E as desavenças continuam.

Nessa época, a cidade veste-se de cores reluzentes, dando um brilho diferente as ruas, becos, ladeiras e praças. O comércio, tentando recuperar o período das vacas magras, oferece os mais diversos produtos, vendendo-os a preço de ouro. Nas cidades turísticas e litorâneas, faltam de tudo, no que diz respeito à infraestrutura. As datas comemorativas coincidem com o período do verão estarrecedor. Essa junção é a química perfeita para o desassossego da população, quer seja ela, flutuante ou não.

Foi num dia desses, para fugir da clausura, que resolvi dar uma volta pelo centro da cidade. Embora não seja adepto de agitações e aglomerações, acabei absolvendo aquele clima festivo. Enquanto caminhava, observava tudo à minha volta. Desde a infância, sempre tive um olhar de lince, o que me custou horas de intensa alegria ou de agonia. Por outro lado, com esse dom, colhi fragmentos para adornar meus contos e crônicas da vida cotidiana.

Numa dessas andanças descompromissadas com o mundo, fui agraciado com a presença descontraída de vossa majestade, o Rei Fabrício, no meio da multidão. Desprovido da coroa dourada e cravejada de pedras preciosas, do cetro e da roupa branca, sob uma manta com as cores da bandeira, lá estava ele. Por alguns momentos, se fez povo e, por isso, fora reconhecido somente por alguns dos seus súditos.

O rei estava ladeado pelo Comandante Geral do Exército do “Reino Caiçara”, o tenente-coronel Sutra. Soldados da Guarda Real protegiam o rei. Notei que ele estava descontraído e sorria para aqueles que o reconheciam e o saldavam. Não havia paparazzi, nem fotógrafo e nem uma blogueira que vivia infernizando a monarquia. Ninguém mais da realeza estava ali. Nem mesmo o primeiro escalão ou os asseclas e  bajuladores o importunavam. Penso que ao sair do Palácio Caiçara, vestindo-se de cidadão comum, ele poderia viver um momento de povo. Era muito bom, sentir o cheiro dos governados. Esse era o espírito daquelas datas comemorativas.

Desde que o Rei Fabrício ascendeu ao trono real, com a queda daquela rainha incompetente e insana, eu tinha o sonho de conhecê-lo pessoalmente. Por diversas vezes, pedi aos seus assessores mais próximos, inclusive, aos seus aduladores, que me proporcionasse o encontro. Blindaram o rei e, por isso, todo esforço foi em vão. O rei continuava intocável, como aquela rainha que entrou para o desterro do esquecimento. Por isso, acreditava que o rei era apenas um conto escrito por um literato sonhador.

Mas, naquele dia, por força do destino ou do acaso, recebi o presente tão esperado e passei a acreditar que o rei não era uma lenda, mas, sim, que ele existia em carne e osso. O Rei era real.

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com

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