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Crônica de Adão Ribeiro: CORPO CARCOMIDO

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Nada mais justo e, também, mais cruel do que o tempo. Desde a tenra idade, tenho ouvido frases como: “Tudo no seu tempo, pois o tempo resolve tudo” ou “Tudo se corrói com o tempo”. A vida efêmera tornou-me uma pessoa cautelosa com relação aos conceitos e preconceitos, que adquirimos durante nossa estadia nesse planeta repleto de enigmas. Preocupa-me em demasia, sabermos que estamos aqui de passagem e que tudo não passa de quimera.

Nas minhas dissertações literárias e nas divagações filosóficas, sempre fui transparente sobre a transitoriedade da vida. Há os que se vangloriam da beleza física ou dos saldos bancários, como se tudo fosse eterno. Para mim, nada é eterno, nem mesmo a própria eternidade. Ao compreender a fragilidade da nossa existência, passei a aceitar com naturalidade os desígnios do Criador.

Diante disso, revolta-me ver toda cena desumana, representada pela violência desenfreada, quer seja contra pessoas, animais ou a natureza. O desrespeito aos idosos e a exploração de menores, a inversão de valores éticos e morais, o enriquecimento ilícito à custa da miséria do povo, a incitação ao crime e ao sexo liberal, dentre outras coisas, traduzem a degradação humana. Estamos à beira do abismo da derrocada existencial. O mundo grita desesperado, em busca de salvação.

O que se espera de uma geração criado no berço do desamor, do desrespeito e da ausência de moral? Uma juventude que cultua a apologia ao crime e ao sexo livre, não está apta a governar o mundo. A religião que faz da fé um balcão de negócios e a política fertilizada pelo esterco da corrupção transformam uma nação num esgoto de sujeira a céu aberto. Um sistema de ensino que deseduca os embriões de uma sociedade futura, muito me preocupa e me causa agonia. Mulheres que expõem e oferecem o corpo à melhor oferta financeira. Não vejo com bons olhos, o amanhã que desponta além do horizonte.

Moro num reino, denominado “Reino Caiçara”. Digo que para conhecer o mundo, não precisa sair de casa, pois a sua casa é uma réplica do mundo. Da janela do meu reino, contemplo todos os reinos distantes, aqui e além mar. Os flagelos do meu reino são os mesmos de todos os outros reinos. Padecemos de todos os pecados, angústias, revoltas, desejos de prosperidades e de justiça social. Como em todos os outros reinos, gritamos por toda sorte de melhorias. Desenhamos um castelo de sonhos!

Por mais que eu me embriago com o cálice de otimismo, não consigo acordar sem a ressaca da decepção, gerada pelo abandono dos governantes contra os seus governados. Triste saber que a miséria de muitos, acabam beneficiando os poucos (mandatários), donos do poder econômico. É assim desde o início da humanidade, desde os primórdios tempos da criação. A ganância levou a um confronto entre os irmãos Caim e Abel. Hoje, a corrupção é a versão moderna dos confrontos bíblicos, que levam as pessoas a se digladiarem entre si.

Estamos vivendo um tempo, em que o corpo chamado sociedade, está carcomido pelos males de uma moral desajustada, a qual navega a deriva num mar de lama. Assim sendo, o corpo carcomido vai se desfazendo aos poucos, até desaparecer, sem deixar rastro e, muito menos saudade.

 

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com

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