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Crônica de Adão Ribeiro: VARA DA INFÂNCIA

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Não há como falar dos tempos de outrora, sem reportar à minha terra natal: Guaimbê SP. Ali foi o berço sagrado da minha infância e nascedouro da formação moral do homem que sou hoje. Foi ali que bebi as primeiras gotas do saber e me banhei nas águas cristalinas da humildade. Os primeiros passos desajeitados mostraram-me o caminho do amanhã e desenharam um mundo real, o qual enfrentaria num tempo não muito distante.

No banco do Grupo Escolar “José Belmiro Rocha”, que fica defronte a “Cooperativa Central”, rabisquei desconcertante, as primeiras letras do alfabeto, tendo como orientação a cartilha “Caminho Suave”, da autora e professora Branca Alves de Lima. Depois que tomei gosto pela letra, não parei mais. Desembestei a escrever coisas com e sem nexo. Enveredei pelos caminhos da literatura. Deu no que deu.

Costumo divagar, quando começo a escrever e contar histórias. Creio que os assíduos leitores, já perceberam isso. Mas reportando aos tempos de outrora, lembro com saudades das traquinagens de infância. Peraltices sem maldades e longas histórias contadas pelos avós, povoam doces lembranças de um tempo que se foi. Bonecas de espiga de milho e carrinhos de carretel, entalhados na madeira, eram retratos de uma infância humilde.

Não quero nem falar do meu primeiro amor platônico, que nutria pela filha do gerente de um banco financeiro. E assim, a vida bucólica e singela foi passando por mim, sem que eu percebesse. Cresci junto com meus irmãos e primos, sempre afagado pelo carinho dos meus pais e avós. Foram meus patriarcas que me ensinaram os princípios morais e éticos. Aqueles traços contidos no sangue deles seguiram-me a vida inteira. O maior legado que me deixaram, chama-se educação.

Olha que ao longo dos anos, tenho enfrentado todos os dissabores da vida. Numa luta desumana, tenho matado um leão por dia, para sobreviver. Passei para minha linhagem, os ensinamentos de meus antepassados. O caminho suave da cartilha, lá do banco da escola, assopra aos meus ouvidos, dizendo que tudo que aprendi na tenra idade e nas ruas descalças de minha terra natal, valeu a pena.

Ainda buscando nas imagens esbranquiçadas da minha infância, recordações passadas, lembro-me das noites enluaradas que ficávamos brincando na calçada. As brincadeiras aconteciam sempre sob a vigilância de nossos pais ou avós. Não distanciávamos dali, porque tremíamos de medo da perua (kombi) do Juizado de Menores. Por isso, não podíamos passar das dez horas da noite. Se extrapolássemos o horário, éramos recolhidos e só voltávamos para casa, quando os pais iam buscar e após levarmos um sermão do Comissário (de menores).

Sem falar das sovas, quando fazíamos traquinagens ou desrespeitávamos as pessoas mais velhas do que nós. Se arrumássemos brigas com os irmãos ou colegas e chegássemos em casa chorando, a sova era dobrada. Bilhete escolar, relatando indisciplina, era sova na certa. Entre uma sova e outra, aprendemos a respeitar e ser respeitados. Nunca vi uma criança gritar com os pais ou dizer que iria à delegacia de polícia prestar queixa, em razão da surra recebida. Quando se excedia na correção, nada que uma salmoura não resolvesse.

Meus pais apanhavam uma vara de margoso ou de marmelo e a surra transcorria num ritual sagrado de correção. Entre um soluço e outro, ouvíamos nossos pais discorrerem o motivo da sova. Ao término, tínhamos que nos comprometer a não repetir a transgressão. É bíblico: “Educa a criança no caminho em que deve andar, e, ainda, até quando envelhecer, não se desviará dele” – Provérbios 22:6. A Bíblia segue dizendo: “A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a sua mãe” – Provérbios 29:15

É certo que naquele tempo, não havia viciados e aviões do tráfico, alienados da internet, agressores de pais e irmãos, homicidas infantis, analfabetos prematuros, grávidas antes da puberdade. A televisão ainda não infectava os lares, com toda sorte de lixo informativo. Tempos áureos em que a família, a escola e a religião, eram o tripé que sustentava uma sociedade humana e igualitária. Tempos que não voltam mais. Hoje, o progresso e a tecnologia, criam jovens alienados, que vagam pelo mundo, feitos zumbis.

Quando reporto à vida bucólica e singela da minha terra natal, lembro com saudade da VARA DA INFÂNCIA, que com seu jeito peculiar, ensinou-me a jurisprudência do amor, da educação e da obediência.

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com

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