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Precisamos falar sobre Doguinha

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Se você, assim como eu, não conhecia Doguinha, não está perdendo muita coisa. Mas, ainda assim, precisamos falar sobre ele. Doguinha é um MC que aparenta ter, no máximo, 11 anos (procurei a idade dele, mas não encontrei). Doguinha acabou de lançar um clipe que já bateu 1 milhão de visualizações. Doguinha viralizou na web e sua música já toca em festas pelo país. Doguinha é apenas uma criança e já está fazendo um enorme sucesso!

Vejam só a letra do hit de Doguinha:

“A novinha linda que mora aqui no lado
Ta cheia de papim no Whatsapp
Bumbum gostosão, corpo sedutor
Foi por isso que o Doguinha se encantou
Vem e brota aqui na base
Vamos fazer sacanagem
Sei que você tem vontade
Então, senta um pouquinho”

Como você pode ver, nada demais. Um funk como outro qualquer, nada de novo e original, a não ser pelo fato de Doguinha ser uma criança. Tão criança como outra qualquer.
O engraçado é que não tá tendo qualquer campanha de boicote, pelo contrário, a música de Doguinha parece que “tá virando meme”.

As pessoas vão lá, deixam o seu like/amei/haha, marcam mais três amigos e compartilham o vídeo. Ninguém parece estar preocupado com uma criança cantando uma música erotizada com mulheres sensuais. Até porque Doguinha é menino e nossa sociedade valoriza a virilidade masculina desde cedo: “esse dai vai ser pegador”.

Será que se Doguinha fosse menina as coisas seriam diferentes? Eu nunca vi um pai falando que sua filha seria pegadora.
Se uma menina de 11 anos estivesse falando do moreno gostosão que mora aqui do lado, chamando pra fazer sacanagem, num clipe com dançarinos sensuais e um homem seminu na piscina, qual seria a repercussão?

Como Doguinha é menino, e achamos o máximo quando eles demostram que são garanhões em potencial, muito provavelmente não vamos ver ninguém fazendo campanha aqui no facebook achando um absurdo Doguinha, uma criança, falando pra novinha linda de bumbum gostosão e corpão sedutor (que tem mais de 20 anos) brotar na base e fazer uma sacanagem, sentando no Doguinha.

Há menos de um mês estávamos todos engajados, falando sobre “pedofilia” e erotização infantil. Até que ponto vai a nossa hipocrisia e seletividade? Erotização infantil e pedofilia só é interessante quando é para atacar museus? Ou também vale para questionar a nossa tolerância e naturalização de práticas quotidianas?

Texto: Tauat Augusto Resende

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