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Crônica de Adão Ribeiro: O PARLAMENTO E AS PENOSAS

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Toda vez que me escondo, eu me acho. Por isso, não adianta enclausurar-me dentro do meu mundo e, assim pensando, melhor sair por ai, andar por todas as províncias do “Reino Caiçara”. E quando assim faço, as pessoas acenam-me e me fazem compreender que sou muito conhecido e que estou inserido no cotidiano de um povo tão humilde e sofrido. Amo demais este lugar e as pessoas que nele habitam, por isso, recebo como gratidão, o reconhecimento de cada um deles.

Outro dia, sentado no banco de uma praça qualquer, a fim de contemplar a natureza e o caminhar descompassados de pessoas escravizadas pelos afazeres do dia a dia, pude observar um grupo conversando próximo de mim. No calor das discussões, os interlocutores queixavam-se dos serviços públicos. O descaso com a saúde, transporte, segurança, educação, habitação, ruas descalças, inundações, estavam entre os assuntos dissertados. Não faltavam adjetivos depreciativos ao Rei Fabrício e aos membros do Parlamento (Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns). Até a Suprema Corte era lembrada.

Por algum momento, quis aderir-me ao grupo; mas, depois, preferi ficar onde estava e permanecer como observador. É certo que minhas caminhadas pelo reino, sempre renderam grandes momentos e histórias intermináveis. O cotidiano do reino, sempre nos agracia com fatos trágicos ou pitorescos. Lá distante, num casa de pau a pique, uma música sertaneja, tocava chorosamente, num rádio “Invicto”. Ora meus ouvidos se atinham a musica, ora ao debate caloroso do grupo.

De repente, um dos mais afoitos, durante aquela tertúlia, esbravejou: “Como pode! Meia dúzia de políticos meteram a mão na burra do reino, saquearam algumas patadas e viajarem para o “Porto das Penosas”. Um dos interlocutores, indagou: “Foram fazer o que lá?”. Intercedeu um terceiro, ao que parece, mais informado: “Como o Monarca pretende instalar uma granja e um abatedouro de galinhas aqui no reino, para consumo interno e, também, para exportação, foram buscar informação e experiência, sobre o empreendimento, num reino distante”.

Como no meio do grupo, havia um radical, de língua afiada, já foi apimentando o debate: “Nada disso. Usaram o tal projeto da granja, como pano de fundo, pois, na verdade, foram passar férias naquele lugar paradisíaco. Comenta-se que levaram a família a tiracolo. Por que não levaram um avicultor?”. Concordo plenamente com o radical do grupo. Por que não se investir nas necessidades urgente do reino? As províncias estão abandonadas e carentes de toda infraestrutura. O povo já morre de fome, imagina as galinhas.

Uma plebeia revoltada impetrou uma ação civil pública, junto a Suprema Corte, tentando impedir a viagem, mas, de nada adiantou. É certo que a lei só é aplicada contra os pobres e desvalidos. O que impera é a farra do boi, quando se fala do erário público, Assim foi no reino anterior, quando, quem governava era uma rainha louca e insana. O primeiro ministro daquele governo saqueou a monarquia e nada aconteceu. Hoje ele goza de uma ostentação e escarneia os plebeus e os vassalos, a quem, um dia ele governou. É a chamada santa impunidade, que muitos veneram.

Agora, os membros do Parlamento, disfarçados de representantes do povo, estão usufruindo das mordomias, que o cargo lhes proporciona, deliciando-se nas praias e nos resort de “Porto das Penosas”. Enquanto isso, o povo – massa de manobra -, comem o pão que o diabo amassou, para sobrevierem. Assim caminha a humanidade, abraçada com a desumanidade de quem as governa. O povo, ora o povo!

Os parlamentares sacrificam as penosas, para matarem suas fomes e matam o povo, para saciarem suas ganâncias. Na realidade, eles não têm pena, nem mesmo de quem tem pena.

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com

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