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Crônica de Adão Ribeiro: O REINO EM ALVOROÇO

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Ao fazer minha caminhada matinal, pelas ladeiras íngremes do reino, com vistas a diminuir a pança e o stress, deparei-me com um povo em alvoroço. Notei um misto de pânico e de curiosidade, nos olhos daqueles que buscavam saber o que ocorrera naquela noite fatídica, nos cafundós do “Reino Caiçara”. Enquanto o mundo girava desgovernado à minha volta, eu continuava naquela caminhada, descompromissada com tudo e com todos.

Acima dos arranha-céus e das montanhas, sobrevoavam aviões de caça e helicópteros, das Forças Armadas. Navios sondas e mergulhadores treinados vasculhavam cada centímetro cubico de água doce e salgada. Soldados e cães farejadores rastreavam incansavelmente as ruas e vielas, além das matas fechadas, que circundavam o Palácio Real. Naquele momento, não havia sido decretado o “toque de recolher”, mas não tardaria.

Não bastasse aquela operação de guerra, notei a presença de câmeras de televisão de todas as agências do mundo. Correspondentes dos jornais internacionais, também se faziam presentes. Satélites espiões vigiavam cada movimento das pessoas e de objetos estranhos, que transitavam pelos condados e províncias. Não esperava que aquela caminhada matutina, rendesse tantas observações e futuras histórias.

Agentes secretos, disfarçados de pessoas comuns, infiltravam-se nos botecos, praças, puteiros, portos de pesca, lugares de jogatinas, barbearias e toda sorte de lugares, onde havia aglomerações de pessoas. Tinham por missão, obter informações sigilosas, com vista a desvendarem o que ocorrera com a mais alta autoridade da nação, ou seja, Vossa Majestade, o Rei Fabrício. Era uma questão de honra, resolver aquele mistério, em poucas horas. Afinal de contas, os olhos do mundo, estavam voltados para o “Reino Caiçara”.

A monarquia acordara fragilizada e, por conseguinte, o reino clamava por uma solução urgente. Busquei, com as cautelas de estilo, saber o que ocorrera. Alguém do povo, de forma muito discreta, temendo represálias e de ser taxado como conspirador, confabulou-me que vossa majestade desaparecera, no silêncio emudecido da madrugada. Em razão disso e, por haver parcas notícias, especulavam que fora vítima de emboscada. Uns diziam que abdicou solitariamente e buscou asilo em reino vizinho. Outros diziam que fora sequestrado e morto por desafetos intra-palacianos.

A verdade era que, naquele momento trágico, o reino encontrava-se acéfalo. O que fazer? Nem mesmo o Parlamento (Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns), sabia a que rumo tomar. A todo instante, os maiores juristas e a Suprema Corte, reuniam-se às portas fechadas, para discutirem secretamente, que atitudes tomariam, na ausência do monarca. Estaria o Rei Fabrício, escondido na casa de uma concubina e, por ela, protegido entre os seios fartos da mesma? Por ter ascendido ao trono recentemente, não gozava de grandes inimigos internos, por isso, a palavra assassinato não ganhara força. Mas os súditos e a imprensa internacional exigiam respostas urgentes.

Mas enquanto o reino estava em alvoroço e o mundo girava, eu continuava a minha caminhada, alheio a tudo aquilo. Lembram que eu disse que caminhava para diminuir a pança e o stress? Pois é! Se me desviasse do propósito inicial, de nada adiantará levantar cedo e caminhar, não é mesmo? Embora o mundo acontecesse à minha volta, eu procurava ignorar tudo aquilo. Ou pelo menos tentava.

De repente, um fidalgo trouxera uma notícia bombástica, obtida através de um capiau, morador lá dos cafundós do reino. Tamanha algazarra se formou em torno do fidalgo. Agentes secretos e de segurança, repórteres de televisão, rádio e jornal do mundo inteiro, súditos, vassalos, asseclas e toda sorte de pessoa, queriam ouvir, ao vivo e a cores, o que ocorrera com o rei.

Disse o mensageiro da boa nova: “Na madrugada de hoje, exatamente às três horas, na Província de São João Batista, o Rei Fabrício fora abduzido por seres estranhos e transportado em um disco voador. Dali fora conduzido para Varginha (capital dos extraterrestres), onde será minuciosamente estudado em laboratório interplanetário”.

O Rei Fabrício tinha atitudes estranhas, coisas do outro mundo e precisava ser estudado com muito carinho e esmero”, disse um dos pilotos da nave, ao capiau. E como o capiau nada entendia de reino e nem de governo, apenas se ateve ao brilho reluzente daquela nave, quando chegou e quando partiu. Não perguntou o nome dos tripulantes e nem os convidou para um dedinho de prosa. A bem da verdade, temeu aproximar-se daquele troço estranho.

O rei não abdicou, foi abduzido. Aninharam-se, no ponto de pouso e decolagem, os ufólogos, ecólogos, achólogos e aproveitadores da ignorância e da inocência humana. O lugar de onde ele partiu, virou ponto turístico e, não tardaria, para ser transformado em lugar santificado, pelos devotos de São Fabrício. Credo em cruz!

Assim terminou a minha caminhada e as especulações de quem, assim como eu, não tinha o que fazer na vida. Acabou a história. The End.

 

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com.

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