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Crônica de Adão Ribeiro: A REAL SEITA SECRETA

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Desde que me entendo por gente, sempre fui inquieto com tudo que me cerca. Nunca acreditei na verdade absoluta e, por isso, sempre caminhei em busca de resposta daquilo que me aguça a curiosidade. Nessa busca interminável, já deparei com toda sorte de assunto e de mistério. Nas minhas pesquisas solitárias, desbravei mundos insondáveis e conceitos arcaicos, escondidos na ignorância da mente humana.

Por isso, meus ouvidos nunca se prenderam ao que outros pensam ou deixam de pensar. Mas uma coisa é certa, tudo que é feito às escondidas, revestido de mistérios, causa especulações ou conclusões errôneas de pessoas maldosas e pouco esclarecidas intelectualmente. Por conta disso, criam-se mitos ou factoides, que vagam pela eternidade.

Nas minhas andanças pelas províncias do Reino Caiçara, conversando aqui e acolá com súditos de singeleza impar, fui surpreendido com informações de que nos muros intra-palaciano, existe uma seita secreta, com rituais desconhecidos. Dizem até que invocam os poderes do “cabrunco”, durante os trabalhos, não sabendo se religiosos ou não. Como quem conta um conto aumenta um ponto, dizem que os seguidores são escolhidos à dedo dentre os habitantes das províncias e, ainda, que durante os rituais, sacrificam animais.

Mas, em que pese todo tipo de especulação, o que preocupa é que os  adeptos da tal Real Seita Secreta – R.S.S, infestaram a monarquia caiçara. Eles ocupam os principais cargos do primeiro e segundo escalão. Dizem que são eles que mandam e desmandam e que o Rei Fabrício é apenas um “pau mandado”, uma “Maria vai com as outras”. Já é sabido que, desde que ascendeu ao trono, rei ganhou de presente uma “eminência parda”. Ainda não se comemorou o primeiro ano de reinado e já se percebe as primeiras arranhaduras ou rachaduras de seu governo.

Todas as vezes que se fala em mudança de governo, onde os governados sonham com melhores dias vindouros, vem à mente o romance “A revolução dos bichos”, de George Orwell. O que chega, diz que tudo vai mudar para melhor e que as aberrações do anterior, serão apenas um quadro velho pendurado na parede do esquecimento. Mas, ao final, o que se vê, são as repetições de erros anteriores. E o que é pior, membros renegados do governo anterior, fazendo parte da nova corte.

Como diz o adágio popular: “Mudam-se as moscas, mas a merda é a mesma”. O que difere esse governo do anterior é apenas a introdução de membros da Real Seita Secreta no primeiro e segundo escalão. Como a origem dessa seita é secular e, portanto, está em todas as partes do mundo, crê-se que o rei é apenas uma marionete humana, na mão dos que querem apenas usurpar o poder e a riqueza do Reino Caiçara.

As reuniões com escopo de se discutir assuntos de interesse do palácio ou das províncias, são realizadas às portas fechadas, não se permitindo a presença da imprensa e, muito menos, respeitando o que preceitua a lei da transparência. Eu, um simples vassalo, sem título de nobreza, pedi um encontro com rei e nunca fui atendido. Fui barrado pelos soldados de chumbo da guarda palaciana. Sentado na cadeira do trono, o rei só tem olhos para aqueles que o bajulam. Quando ele era apenas um dos membros, que compunham o Parlamento (Câmara dos Comuns), assim não agia.

Dizem as más línguas que, mesmo antes de ascender ao trono, o Rei Fabrício já era membro honorário da Real Seita Secreta. Acreditam os súditos que essa é a razão primordial para convocar membros dela, a fim de comporem postos estratégicos do governo.

Só nos resta esperar que o rei não se torne refém de seus próprios segredos. A história (tempo) não perdoa.

Foto: Trecho do filme ‘De olhos bem fechados’

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com.

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