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Crônica de Adão Ribeiro: Mar de lama

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É remota a minha preocupação com as forças da natureza. Aprendi desde minha tenra infância, que com ela não se brinca. Lembro-me, como se fosse hoje, que quando começava uma chuva torrencial ou uma ventania incontrolável, minha mãe e eu, danávamos a rezar, uma reza interminável. Gastávamos o terço sagrado todinho, em orações repetitivas, até a tempestade passar. Virávamos o espelho, para que os relâmpagos e os raios, não viessem refletir no interior da casa e, por conseguinte, nos atingir.

Mesmo tremendo de medo, guardava em Deus que aquela tormenta iria passar. E quando passava, eu saia no quintal e notava uma calmaria imensa. Ao divisar o horizonte, parecia ouvir a voz de Deus, dizendo: “Filho meu, não desafia o meu poder e cuida com carinho da natureza, que construí com carinho e suor”. Quando o tempo fechava seu semblante, eu desligava os aparelhos elétricos da tomada. Minha casa entrava em silêncio. Pairava no ar, um clima de respeito tanto ao Criador, quanto à natureza.

Nas minhas divagações memoriais, ficava imaginando os dias e noites do dilúvio, narrado na Sagrada Escritura. Qual era a visão catastrófica que Noé tinha da terra, enquanto o mar subia e a terra ia desaparecendo aos poucos? Com o passar dos dias, era só água em todos os pontos geográficos da terra. De uma coisa estou certo, a Arca – construída sob a orientação do Pai, era mais resistente que o Titanic. Tanto é que, ao fim da tormenta, isto é, depois de quarenta dias e quarenta noites, Noé e seus familiares, quanto os animais, ancoraram incólumes no Monte Ararat.

Reafirmo que sempre tive medo e respeitei a força da água, do fogo e do ar. Bastam ver a fome voraz do fogo devorando uma floresta, ou o beijo ensurdecedor dos ciclones e tornados, jogando tudo pelos ares, por onde passa. O homem torna um ser impotente, diante de uma cena devastadora. Nem mesmo a ciência ou a força dos governantes poderosos, conseguem frear a ira de Deus, representada por esses fenômenos naturais.

Mas o que vem me preocupando nos últimos dias, são as ondas barrentas, as quais surgiram no mar, que banha o Reino Caiçara. Os tabloides e os cientistas de meia tigela passaram a conjecturar sobre diversas possibilidades do surgimento de tal fenômeno. Uma coisa é certa, afugentaram-se os turistas. É degradante, observar inerte, o mar revolto, chorando lama de tristeza. Debruçado na janela do meus olhos, reporto-me as cenas da natureza enfurecida, quando da minha infância.

Fico imaginando o mar caminhando pelas ruas e vielas do reino, numa vingança desenfreada, vindo cobrar o que dele fora surrupiado. As imagens do Tsunami, ocorrido na Indonésia, não me saem da memória. Colhidos de surpresa, nem os governantes e nem os governados, terão em mãos a Arca ou o Titanic, para salvarem de tamanha tragédia. Deus não perdoa e a natureza cobra as afrontas humanas. De nada adiantou os ouros guardados ou os títulos de nobreza, usados durante séculos. Meu Deus, que isso não passe de uma imaginação momentânea!

Mas outra lama, também ronda o Reino Caiçara. Essa, por exemplo, sucumbe o Reino, o Parlamento e a Suprema Corte. Se não contida a tempo, pode enlamear não só o Palácio Real, mas, também, todas as Províncias, encobrindo para sempre a honra e a dignidade de um povo honesto, trabalhador e ordeiro. Porém, quando contaminar a Corte Suprema, exemplo máximo de justiça, nada mais resta à nação. Um povo desacreditado e com a visão turva, pedirá para não mais existir. Nesse momento, a mão pesada de Deus, cairá sobre a nação, como ocorreu com Sodoma e Gomorra.

Não sei ainda, se se trata do fim dos tempos. Ao que parece, as forças bravias do mar, dão sinais de cansaço, através de ondas lamacentas. A natureza quer dizer algo, que nosso parco entendimento não consegue decifrar. Não tardará e seremos todos engolidos pela fúria de Deus e não sobrará reino algum na face terra. Nesse dia, todos nós estaremos livres daqueles que buscaram o poder pelo poder. Todos os governantes autoritários e gananciosos estarão submersos em suas luxurias, engolidos por um mar de lama, jamais visto.

É triste ver que um mar de lama banha o Reino Caiçara.

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com.

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