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Crônica: dai-me forças, senhor!

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Área da usina Euzébio Rocha, em Cubatão, SP (Foto: Divulgação)

Sempre lutei com energia, para vencer e atingir os meus ideais. Busquei força espiritual, moral, física e até sobrenatural, para sobreviver. Sei que as procelas da vida, exigem desafio e persistência constante para transpor as barreiras reais e imaginárias. Nunca fugi e nem desisti dos meus sonhos, pois, foi isso que me ajudou a crescer, tanto intelectual, quanto moralmente. Só fogem da tempestade, os covardes. Isso jamais fui, haja vista que nunca tive medo do desconhecido.

Um dia desses, fui surpreendido com a manchete de um tabloide matutino, noticiando o interesse de se construir uma usina termoelétrica no “Reino Caiçara”. Segundo o noticiário, tudo está sendo discutido e analisado por debaixo dos panos, entre empresários gananciosos e políticos corruptos. De maneira sórdida, querem ludibriar os súditos e esfacelar o meio ambiente. É certo que o “Reino Caiçara” conta com parques ecológicos, reservas indígenas, extensos mananciais, uma biodiversidade e qualidade de vida invejáveis.

É certo que num reino distante, cuja economia baseia-se na indústria e na distribuição de petróleo, estudos dão conta de que, para cada aumento de 10 microgramas por metro cúbico de material particulado no ar da área residencial, aumentava em 5% a quantidade de internação por doenças respiratórias, especialmente em crianças menores de cinco anos, e de doenças cardiovasculares em maiores de 39 anos. Tudo isso provocado pelas industrias poluentes. Sem contar com os danos ambientais, sacrificando a fauna e a flora. Mas a empresa interessada na construção da usina, preocupa-se com os bilhões de patacas (moedas) investidas e os trilhões de lucros posteriores. Dane-se a população e a natureza.

Mas o que me causou mais indignação, foi o fato de que o Parlamento (Câmara dos Comuns e dos Lordes), cujo dever primordial é fiscalizar os atos do rei e cuidar dos interesses comum do povo, fez vista grossa ao problema. E o que é pior, escondeu da população, informações privilegiadas. Querem aprovar, a toque de caixa, esse megaprojeto, sem antes consultar a população. Parece-me que o atual Parlamento, pouco difere da composição do anterior. E por onde anda a Suprema Corte? Ao que parece, ela se preocupa apenas com assuntos que geram holofotes em sua direção.

Nas minhas andanças em busca de informações, tomei conhecimento de que o novo Rei já dá sinais de estar contaminado com uma doença, diagnosticada pelo nome de “letargia administrativa”. Agente transmissor: governo anterior; sintomas: desinteresse em apurar rombos financeiros do antecessor e política de toma lá dá cá com o Parlamento; remédio para a cura: renúncia ou impeachment. Estando contaminado, assinará a construção da famigerada usina. Ascendeu ao trono, com promessa de mudança e de prosperidade ao reino. De boas intenções, o inferno está cheio.

Se não houver uma mobilização em todas as províncias do “Reino Caiçara” e, ainda, se a Suprema Corte, não tomar medidas jurídicas urgentes, a tal usina será construída ao arrepio da lei, ferindo os interesses comum do povo e causando danos irreversíveis ao meio ambiente. Já em pleno funcionamento, afugentará o turismo, banalizará todo tipo de doença da população, sepultará nossa fauna e flora. A riqueza propalada pelos empresários gananciosos e políticos corruptos, agraciará apenas a burra (cofre) deles. Quanto aos súditos, ora os súditos! Que se danem os vassalos e bajuladores do reino. As gerações futuras, amargarão para sempre, os desmandos desse reino.

Por enquanto, podemos contemplar da janela da vida, a paisagem de nossa floresta verdejante e do mar tranquilo, banhando as praias paradisíacas. Ver o céu pintado de azul anil e bordado de estrelas reluzentes. Respirar o melhor ar do planeta e transitar pelas ruas sem máscaras protetoras. Banhar-se em cachoeiras de águas cristalinas, ainda é uma realidade.  A vida bucólica de um povo desprovido de vaidade. Devemos aproveitar cada segundo dessa hipnotizante contemplação, porque, não tardará, e, tudo isso, será apenas um quadro pendurado na parede do passado.

Senhor, dai-me forças, para que eu não veja o “Reino Caiçara”, sucumbido pela avalanche do falso progresso.

Texto escrito por: Adão Ribeiro

Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com.

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