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O Reino às moscas

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É enfadonho olhar o cair da tarde no Reino Caiçara. Lembrar-se dos tempos de outrora, onde tudo era ouro reluzente, dói no fundo da alma. Talvez seja por isso, que sofro por ser um eterno saudosista. Dizem que quem gosta de passado é museu, mas eu, particularmente, não concordo com isso. Quando sento preguiçosamente numa cadeira de balanço e fico a viajar pelo passado, causa-me um prazer imensurável. Portanto, lembrar-se do reino de outrora, deveria causar prazer e não asco.

As pompas do reino, envoltas em tradições centenárias, encantavam os olhos dos súditos e de visitantes simpáticos à monarquia. O amor e o respeito à rainha, tinham uma magia indescritível. A imagem da soberana era de uma mãe protetora, cuidando dos filhos desprotegidos e carentes. O andar compassado dela traduzia segurança e serenidade no trato com as nuances do reino. Por isso, era amada e respeitada por todos, isto é, súditos, vassalos e serviçais. Os gestos simples dela imortalizavam-na.

Quando de sua coroação, tudo era esplêndido no reino. As províncias exalavam encanto e esperança. As ruas, vielas, praças, coretos tinham um encanto, pois a conservação era exemplo aos reinos vizinhos e além mar. Os prédios públicos e os patrimônios históricos gozavam de carinho e respeito, tanto da corte, quanto dos súditos. Com o passar do tempo e diante dos desmandos dos asseclas da monarquia, a beleza do reino foi minando e as virtudes da rainha, caíram no descrédito.

Ao dar guarida às aves da rapina, a rainha foi se distanciando do reino e perdendo o respeito dos súditos. Embora alertada por pessoas que a admiravam, ela persistia no erro. Acreditava que os seus assessores, isto é, os detentores dos títulos de nobreza e os ministros eram fiéis aos seus propósitos de conduzir com dignidade a “coisa pública”. Enquanto ela se comprazia com as adulações de seus bajuladores, eles surrupiavam os cofres públicos, na calada da noite.

Hoje, no apagar das luzes, o que se vê é o palácio em total abandono e o lixo tomando conta das ruas, vielas, praças e coretos. A podridão do reino ultrapassou as portas do palácio e contaminou todas as províncias. Não há como esconder o desgoverno de uma monarca ausente e incompetente, a qual, no início de seu reinado, semeou esperança a um povo simples, trabalhador e ordeiro. O cheiro fétido veio acompanhado da inércia do Parlamento e da Suprema Corte. O sentimento de impunidade levou a população às lagrimas.

Mas, como nem tudo está perdido, ao que parece, por força da lei, a monarca deixará o poder, num tempo não muito distante. Há rumores de que não tarda e um monarca assumirá o poder. Mais uma vez, o povo se embriagará de esperança e voltará acreditar em promessas de um futuro promissor. Em que pese o novo monarca, convocar pessoas de conduta ilibada para auxiliá-lo na missão de reerguer o reino, ainda é cedo para avaliar o que será de todos nós.

Primeira providencia do novo monarca e falo como súdito, será uma rigorosa auditoria financeira no reino, devendo punir com prisão, as aves de rapina. E o que é de suma importância, confiscar os bens dos larápios da corte e, acima de tudo, repatriar as patacas (moedas), ao tesouro real (cofres públicos). O monarca não deverá, em momento algum, fazer conchavos com políticos corruptos, para salvar a pele das aves de rapinas, as quais estão partindo em revoada, rumo ao mundo da impunidade.

O Reino Caiçara fora deixado às moscas. O lixo da imoralidade pode ser visto em cada beco e em cada esquina. O cheiro fétido da impunidade desce forçosamente pela garganta de cada um de nós. Que o novo monarca, não jogue para debaixo do tapete da indiferença, o que fizeram com todas as províncias.

As moscas reinam soberanas, sobre o Reino Caiçara.

Texto: Adão Ribeiro

Postagem: Lucas Galante

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