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O Feijão e a Crise

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Sou de um tempo em que a palavra tinha peso e valor. O fio de bigode valia mais que nota promissória. O homem deixava de comer, para honrar os seus compromissos. No armazém do seu Takada, o crédito dos clientes, era anotado numa caderneta. No final do mês, lá estava o cliente “passando a régua”, o que muito alegrava o comerciante.

Passou-se o tempo e com ele, marcas indeléveis na minha vida. Lembro-me que as moçoilas, caminhavam faceiras em volta do coreto da praça, com seus vestidos de chita e chuquinha no cabelo. O jardim todo florido, em torno da igreja matriz, tinha o desenho da natureza do lugar. Os trotes compassados dos cavalos, pelas ruas descalças, diziam que a vida não tinha pressa.

No lugarejo onde nasci nada acontecia por acaso. As festas juninas retratavam o jeito simples de um povo sem vaidade. No sábado, o povo da roça, vinha fazer a despesa da semana. As ruas pareciam um mercado persa. Automóveis, cavalos arriados, carroças e charretes, cruzavam pelas esquinas movimentadas. Não havia semáforo, mas respeito aos transeuntes, idosos e crianças.

Nos bares, entre um trago e outro de cachaça, os caipiras proseavam e contavam causos engraçados. De vez em quando, uma briga transformava num espetáculo à parte. Quando a tarde ia chegando, os roceiros iam embora e a cidade voltava a abraçar o silencio cotidiano. Passou-se o tempo e com ele, a certeza de que um dia, tudo aquilo se transformaria em saudade.

Cresci em meio às brincadeiras infantis, regadas com cantigas de roda e histórias contadas pelos meus avós. Nas ondas simplórias de um rádio de válvulas, as modas sertanejas cruzavam o céu do meu povoado. Quando me lembro de tudo aquilo, brota uma lágrima solitária nos meus olhos de eterno saudosista.

Já naquele tempo, o meu pai, um homem pouco letrado, porém, de uma sabedoria incontestável, já falava das dificuldades da vida. Reclamava do governo e previa um futuro sóbrio. Criticava o abandono da agricultura e nos alertava para economizar centavo por centavo. Por ser criança, não entendia a sua filosofia de caboclo. Hoje, num tempo tardio, queria ele por perto, para beber o mel da sua sabedoria. Não dá mais, pois ele já partiu para a mansão do desconhecido.

O meu torrão de terra, era um lugar muito festeiro. Pouca coisa alegrava meus conterrâneos. Lembro-me de um casamento grã-fino, onde, depois do ritual no altar da igreja matriz, a festa rolou noite adentro. Comes e bebes com fartura e não se sabia quem era convidado e quem era penetra. A sanfona, acompanhada de uma viola “xonada”, animava os festeiros, com jeito ou não para a dança.

Achava bonito quando o vigário recitava o maçante compromisso dos noivos: “Eu te recebo como minha esposa (o) e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da minha vida”. A troca de alianças e beijo oficial, fechando com chave-de-ouro o ritual do compromisso eterno. A noiva toda de branco, representando a pureza e o noivo num terno engomado, com a gravata apertada e suando frio.

Fico imaginando o casamento do arroz e do feijão, no altar do prato do brasileiro. Esse casal da tradição brasileira, que transpôs a barreira dos anos, não conseguiu vencer a batalha de um desgoverno. No final, ao recitar o ritual do enlace matrimonial, disse o feijão para o arroz: “Eu te recebo como minha esposa e prometo ser-te fiel e respeitar-te, na alegria e a tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da minha vida, até que a crise nos separe”.

 

Texto: Adão de Souza Ribeiro

 Fundador e primeiro Presidente da Academia Peruibense de Letras. Membro da União Brasileira de Escritores. Ex-colunista dos jornais linenses “O Correio de Lins” e “Jornal Debate” Autor do livro de poesias “O Arquiteto de Ilusões” (1981)

Leia mais textos: asribeiro.blogspot.com.br

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