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Bons perfumes, pequenos frascos: Não Li

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A primeira parte da frase que escolhi para título da coluna de hoje é reza nacional: Não li. Brasileiro não lê. Tem orgulho de não ler. Não lê manual, não lê bula, não lê placa de trânsito e nada que tenha letrinhas pequenas, como detalhes importantes num contrato ou data de validade de um produto perecível.

Há uma certa, e merecida, vaidade nessa característica. Não é fácil sobreviver assim. Quando se consegue, é bem engraçado, mesmo. Como Deputado sem dentes eleito sem saber ler nem escrever. O povo ri das tiriricas. Vencer no caos trás excitação, euforia e méritos inquestionáveis.

Quando pergunto a algum amigo meu o que leu nos últimos anos (não arrisco meses) e a resposta é: nada (auto-ajuda, livro de receitas, bíblia e Paulo Coelho não valem), eu costumo dizer que estão de parabéns; pra quem não lê até que chegaram bem longe com vida.

Não entraremos nas profundezas da importância da leitura na formação do indivíduo, mas existe algo de irresistível no assunto, pois ouvimos desde pequenos o quanto é importante ler. Já que esse é um artigo de cultura e lazer, é por esse caminho que enveredo agora.

Podemos coligar a literatura ao teatro, cinema e TV. Todas nascem a partir de concepções expostas em palavras escritas.

O teatro tem meio caminho andado quando o dramaturgo termina sua obra, mas só se concretiza no palco e diante de uma platéia, e só assim é que se repete: ao vivo, diante da plateia e tem o ator como força maior que domina e é o centro da atenção da plateia. Quando não for assim é porque algo está errado.

Caminha através das palavras. O texto dramático. Existem derivações muito próximas do teatro que trabalham a improvisação e jogos como princípio, mas se questiona muito até onde essas práticas são teatrais ou passam a ser circenses ou simples laboratórios.

A TV, muito semelhante ao teatro, nasce a partir do texto dramático (a teledramaturgia), caminha através dos diálogos mas se concretiza quando são reproduzidas as imagens gravadas e editadas, tendo como resultado uma soma de intenções do autor, ator, diretor e o mais importante de todos, o editor, que combina tudo e como que manipula os ingredientes da fórmula.

O Cinema é o mais diversificado, podendo nascer a partir de uma obra literária que se adapta, bem como pode ser criado a partir de traços e idéias esboçadas num cronograma, pois ele se manifesta através de imagens.
Dos três é o mais ilusório, por isso o mais atraente. Mas tendo tantas manifestações artísticas interessantes que nascem da literatura, por que ler é considerado tão importante?

Entre outras coisas na leitura é você quem tem domínio sobre a informação. Não é o ator, o diretor nem o editor. Você compõe as imagens, texturas, aromas e sabores em sua mente.

Anos atrás me perguntaram se eu tinha lido O Morro dos Ventos Uivantes, de Emely Brunet. Disse: Não li, mas vi o filme. E o assunto acabou ali. Só fui entender o porque quando li a obra. No filme eu vi um Hitchicliff heróico, peito nu, cabelo ao vento, música orquestral como trilha e alguns “câmera-lentas”. No livro me deparei com um homem nocivo, mal e egoísta. Catarina, que na concepção do diretor era uma mulher tagarela, irritante e vaidosa, era na verdade a heroína. 

Faça isso, pode ser bem divertido. Leia um bom autor, Machado de Assis, por exemplo, alguns de seus contos, e imagine atores para os personagens, locações e até trilha sonora. Você pode. Quando você está lendo é você quem manda.


POR
William Fernandes

Ator e Diretor

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